Em julho de 2025, participei de uma residência artística no Centre International des Récollets, em Paris, como parte da programação oficial do Ano do Brasil na França. Este período representou não apenas uma oportunidade de criação, mas uma imersão profunda em pesquisa, práticas colaborativas e intercâmbios culturais que ampliaram os horizontes do meu trabalho.
A proposta inicial foi expandir a residência para além do espaço físico do ateliê. Minha pesquisa se deu na cidade – suas ruas, texturas, marcas do tempo e signos gráficos. Paris foi abordada como um território vivo, capaz de dialogar com memórias, linguagens e imaginários que atravessam a minha prática.
Nesse contexto, o ponto central do projeto foi o mural desenvolvido na fachada da Biblioteca Benjamin Rabier, um espaço voltado à infância e juventude. O trabalho não se limitou à execução pictórica: envolveu encontros e ações participativas, incluindo uma oficina de stencil com crianças, que também intervieram na vitrine da biblioteca. A experiência reafirma um princípio que guia minha trajetória: a arte pública como espaço de encontro e construção coletiva.
O mural contou com a colaboração da artista Veneno, cuja prática social em presídios da América Latina trouxe camadas de sentido para a obra. Essa troca não foi apenas estética – foi uma interlocução sobre práticas transformadoras, sobre como a arte pode atravessar realidades e impactar territórios.
Durante a residência, realizei uma investigação sobre memória gráfica, tipografia e iconografia política, que incluiu visitas à Librairie Publico, espaço histórico vinculado à Federação Anarquista, e à Biblioteca Nacional da França, com acesso a acervos que guardam cartazes, livros e documentos fundamentais para a compreensão das linguagens visuais associadas às lutas sociais. Essa pesquisa não é um apêndice ao mural – ela fundamenta escolhas cromáticas, compositivas e discursivas presentes na obra.
Esse projeto não se encerra em Paris. Ele reverberará no Brasil, no Jardim Limpão, em São Bernardo do Campo, por meio de uma ação colaborativa no Centro Cultural Jardim Limpão (@ccj_limpao), parceiro histórico de minha trajetória. A ideia é criar uma ponte simbólica e concreta entre territórios, afirmando que arte, educação e comunidade podem se articular em processos transnacionais, mas com raízes locais.
Essa experiência só foi possível graças à generosidade e ao acolhimento da equipe da Bibliothèque Benjamin Rabier, das Bibliothèques de Paris, do Centre International des Récollets e do Ano do Brasil na França, além do apoio institucional de @bresilfrance2025 e da confiança de Emílio Kalil, que acreditou no potencial deste projeto. Agradeço também a todos que participaram direta ou indiretamente, tornando esse processo uma construção coletiva.
Mais do que um mural, essa residência foi uma pesquisa sobre linguagem, memória e conexão entre comunidades. A experiência reforça uma convicção que guia meu percurso: a arte pública é um espaço político, relacional e transformador. A etapa parisiense é apenas o início. A continuidade no Brasil reafirma a potência de criar pontes – e não muros – entre territórios e culturas.